domingo, fevereiro 22, 2009

AZEITE MISTURADO COM VINAGRE



Artur da Távola

O que torna difícil e eternamente enigmática a relação amorosa, é que ela se sustenta num tripé quase nunca regular: sensualidade, afetividade e segurança. Esses três elementos não são estáveis ou simétricos. Até brigam entre si, contradizem-se. Precisam equilibrar-se, o que significa o máximo de tensão, entre os três. A contradição é a seguinte: sem esse equilíbrio, a relação se torna difícil e com ele é penosa e cheia de renúncias. Eu penso que se pelo menos houver dois desses três elementos, ela se sustenta. Mas se há um só....não dura.

• SEGURANÇA: não há lei mandando um marido ou uma esposa serem afetivos, carinhosos, atentos, manterem fidelidade, lealdade, mas todos os códigos puniram e punem o excesso de sensualidade que constantemente conduz à sedução, à exacerbação dos sentidos e até ao chamado adultério. Um mistério profundo este que leva o homem e a mulher em estado de amor a tanto necessitarem da segurança através da dedicação exclusiva da outra parte. Emocionalmente ela (a segurança) não pode ser desprezada. Por mais evoluída que a pessoa seja ou queira ser raramente ela pode ser esquecida. Nunca vi a tal da relação aberta dar certo... Pela segurança na relação muita infelicidade nas outras partes da relação é trocada por continuidade tranqüila ou tempestuosa (mas continuidade) da relação. Ela é poderosa e castradora porque independe do prazer.

• AFETIVIDADE: esta, inclui a afinidade, o sentimento dominante, condições fundamentais do relacionamento amoroso. A afetividade está sempre presente no lado mais carente de todos nós: o lado carência,infância, dependência, necessitado de afeto e compreensão. É variada e deslumbrante em seus disfarces. Ora é carinho, ora é paciência e atenção, ora é capacidade de calar discordâncias, ora é fingir que não vê. É o elemento que melhor se dá com os outros dois. Mas sem a segurança se torna inócua e sem a sensualidade se torna melosa, embora possa fazer prodígios de resistência em uniões nas quais sensualidade e segurança estão ameaçadas.

• SENSUALIDADE: inimiga da segurança e da afetividade, embora só funcione a favor da relação amorosa quando entrosada com as mesmas. É o pólo desequilibrador do tripé, embora essencial. E aí é que está o problema. Uma contradição, é certo. Mas de contradições são feitas as relações humanas e amorosas. Pode dirigir-se só para a pessoa amada, mas mesmo nesses casos (sensualidade com fidelidade) ela é por definição inquieta, exigente, inesgotável, resiste com dificuldade a cansaços e desencantos. No caso de não se dirigir apenas ao objeto amado exige variedade, cede a vaidades, é carente e aceita qualquer estímulo novo. É um dos elementos complexos e misteriosos da relação amorosa, principalmente por que levou milênios se disfarçando para poder sobreviver em sociedades que a condenaram, condenam e temem exatamente por seu caráter desintegrador e, paradoxalmente pela forte dose de prazer por ela representada.

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