quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Vale a Pena Ler de Novo

Este artigo do Procurador do Estado, Professor Miguel Josino Neto, foi publicado quarta-feira, 05 de novembro de 2008, em O Jornal de Hoje

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Invejas, fofocas e intrigas

Dos sete pecados capitais, talvez a inveja seja o mais evidente no ambiente de trabalho. Inveja, etimologicamente, provém do latim “invidére” (que tem ou lança mau-olhado). Há inveja pra todo gosto. Às vezes explícita, outras vezes às escondidas, a inveja habita o ambiente corporativo. É “cobra engolindo cobra”. Nas repartições públicas, dentro dos órgãos, secretarias, ministérios, em todos os poderes e em todos os níveis, na iniciativa privada, nas associações e entidades de classe, a inveja existe, invariavelmente é deletéria, prejudicando não apenas o ambiente de trabalho, mas gerando prejuízos significativos às organizações e ao Poder Público.

A inveja costuma andar a solta pelos corredores, salas, ante-salas e banheiros dos ambientes de trabalho. Ela está por toda parte. Em geral é dissimulada e usualmente o invejoso é perigosíssimo, porque como o número de obtusos e medíocres é grande, ocorre uma reunião por osmose e as hordas dedicam sua energia a destilar veneno, rancor, frustração, mágoa e ressentimentos contra o(s) invejado(s). Inseguro, medroso, covarde, com baixa auto-estima, o invejoso é malicioso, ruim, um ignorante que tem horror à inteligência e, em geral, tem algum tique nervoso ou usa chavões. É um infeliz, capaz de condenar um inocente e de inocentar um culpado. Costuma ser um venal, vende sua alma ao diabo. O invejoso é um asno, uma pessoa repugnante.

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Aliás, já há especialistas em detectar o chamado “invejoso organizacional”. Ignorante dos saberes das coisas e do saber de si mesmo, o invejoso organizacional não se reconhece como tal. Vive se fazendo de vítima, fazendo fofocas, criando embaraços, injuriando e difamando os companheiros de trabalho, quando não inventando mentiras, com o objetivo de aniquilar o “colega” a qualquer preço. Há também o invejoso opressor, aquele que não admite nada como bom e bem feito, trocando meia dúzia por seis em qualquer trabalho que lhe chegue às mãos, só para dizer que sabe mais que o autor original. E há o invejoso procrastinador, verdadeira pedra no caminho da produtividade, se interpondo a tudo de bom que lhe chega às mãos, pela raiva de não ter sido o gerador da idéia, do projeto. Muito perigosos são os invejosos neuróticos, que dão um tiro no pé, chegando a falirem a própria empresa por inveja dos sócios. A inveja dos fins também marca presença nesta seara, porque há os que invejam o reconhecimento de quem obtém bons resultados, seja por possuir a inteligência que gera idéias brilhantes ou por ser um trabalhador ferrenho, que tira leite de pedra e é gente que faz.

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A inveja, além do mal que causa ao invejoso infeliz e recalcado, é ruim para o invejado que, às vezes incomodado com a influência negativa, o “olho gordo”, não consegue produzir em paz, não se sente bem no trabalho, sente o ambiente “carregado” e, conseqüentemente, não produz o que pode com os conhecimentos e capacidades que possui. O invejado não consegue, às vezes, colocar o seu talento a serviço da organização em razão dos maus fluidos do espaço profissional.
A inveja gera a fofoca e esta a intriga. A fofoca decorrente da inveja já abalou mercados, já derrubou chefes, já arruinou casamentos, já destruiu famílias. A coisa é tão grave em algumas repartições, que o chefe, ao chegar, pergunta logo à secretária: “o que os corredores estão dizendo?” “Quais as notícias da rádio peão?” O fofoqueiro adora uma panelinha. “Os que se parecem se juntam”, dizem os franceses. Por conta da fofoca, promoções justas deixam de ocorrer, boas idéias são rejeitadas, trabalhos inovadores são desmerecidos, profissionais competentes são despedidos ou ficam escanteados, esquecidos, só sendo lembrados quando “a coisa aperta” e os medíocres, flagrados em suas mediocridades, não têm mais a quem recorrer.
O fofoqueiro só fala pelas costas. É um covarde. Não tem coragem de olhar no olho de quem ofende com suas perversidades.

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A fofoca causa prejuízos altíssimos às empresas e repartições públicas. Segundo a BBC, em matéria jornalística de 22 de maio de 2007, cerca de 13% dos 28,9 milhões de trabalhadores britânicos admitiu gastar pelo menos duas horas semanais fofocando com os colegas, o que indica que gastam 7,4 milhões de horas semanais fuxicando. Como o salário médio na Grã-Bretanha é de 11,71 libras por hora, o estudo concluiu que as empresas perdem mais de 86 milhões de libras por ano (cerca de R$ 345 milhões) só com a fofoca.
A fofoca gera intrigas. A pessoa que inventa fatos, que cria versões acerca de um acontecimento, distorcendo-o ou mal interpretando-o, provoca conflitos que terminam gerando intrigas. O perigo é quando o “intrigueiro” tem prestígio e fama, vive adulando os superiores e quase sempre visita o chefe no final do expediente para fazer os “comentários gerais”. Aí o perigo é grande e é preciso cuidado. Recentemente a 4ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-SP) deu ganho de causa a um ex-empregado do BankBoston Banco Múltiplo S.A., que foi vítima de fofocas e intrigas causadas no ambiente da empresa, tendo sido condenados o invejoso e a empresa que não tomou providências contra o intrigante. Tenham cuidado com o precedente…

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Conheço pessoas - poucas, bem poucas - que, por terem bom caráter costumam fazer a chamada “intriga do bem”. Comentam elogios que ouviram, falam do que as pessoas têm de bom, costumam não dar ouvidos aos comentários maldosos e, quando os ouvem, ou repreendem quem os propala, ou em geral se ausentam para não ouvirem a intriga, a futrica. Não parecem sentir inveja. Vivem de bem com a vida. A humanidade de cada ser abre espaço para a consciência da existência da inveja e esta consciência pode ser um caminho para a mudança, para o desapego e para o crescimento do indivíduo por si mesmo, superando esta fraqueza, se tornando mais leve, produtivo e feliz.

Miguel Josino Neto

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